Dinheiro: você sabe o que é?

A maioria de nós vive lidando com dinheiro todos os dias, mas não entende que a existência do dinheiro – e portanto, de todos os bens e males que o dinheiro oferece – depende simplesmente da nossa fé. Sem a sua fé que esse pedaço de papel com lindas artes impressas vale o que ele diz valer, ele não vale nada – passa a ser somente um pedaço de papel. Visto dessa forma, o dinheiro talvez seja a religião dominante do planeta, unindo todas as crenças (inclusive ateus), todas as raças, todas as classes sociais… todo mundo pode se desentender por tudo, mas a fé de que dinheiro é dinheiro continua inalterada.

Mas e se você entendesse que essa fé em dinheiro é toda em vão? Que nada além da sua fé sustenta o valor do dinheiro, e que dessa forma, todos os seus problemas de dinheiro vêm da própria fé que você deposita nele? Nesse post, vou explicar o que realmente é dinheiro hoje em dia, como ele é criado, qual é a sua verdadeira função, e porque você não entender isso é vital para sustentar toda essa instituição de fé.

De onde vem o dinheiro?

Antes de nos aprofundar um pouco mais, vale esclarecer que dinheiro em geral e todas as conversas que vemos sobre sistema financeiro não é um tema complicado. O que o torna complicado é justamente a necessidade de algumas pessoas de se beneficiarem de entender do assunto enquanto você não entende. Por isso, acabam usando termos difíceis, matemáticas complexas, e um monte de outros artifícios para que o tema pareça ser mais complicado do que ele realmente é. Nesse post, eu vou me esforçar ao máximo para não cair nessa armadilha, e simplificar o seu entendimento.

Mas então, de onde vem o dinheiro? Vamos direto à fonte original: o documento chamado “Modern Money Mechanics” (em português, “Mecânica Monetária Moderna”), publicado pelo Federal Reserve Bank (o banco central dos Estados Unidos) em 1961, tem a função de detalhar a prática da criação de dinheiro e se tornou a forma dominante que bancos do mundo todo praticam a criação de dinheiro.

O documento começa com a seguinte frase: “O propósito deste livreto é descrever o processo básico de criação de dinheiro em um sistema bancário de reservas fracionadas.” Já começou complicado, né? Olha aí o primeiro termo para enganar as pessoas comuns: o que é um sistema bancário de reservas fracionadas? O próprio documento explica o que quer dizer, mas no linguajar da armadilha, então eu vou traduzir o que isso significa de uma forma compreensível.

Funciona assim: primeiro, entenda que o governo de um país é desassociado do seu banco central. São instituições separadas, mas que trabalham em harmonia. Então digamos que algum político populista se tornou presidente, e ele decide fazer uma “ação caridosa” aos pobres que garante R$1000 por mês para cada pessoa que se provar como pobre (seja lá o que isso queira dizer). Para o político, é uma forma fácil de garantir apoio popular (e mais importante do que isso, comprar votos para a próxima eleição sem precisar desembolsar nada do bolso dele). Mas veja como isso funciona: o governo então pede ao banco central uma quantia de R$10 bilhões para executar esse plano de governo. O banco central responde: sem problemas, nós nos comprometemos a comprar o equivalente de R$10 bilhões em títulos públicos do país (se você não entende como isso funciona, não tem problema, porque vai ficar claro logo mais). O governo então pega um monte de papéis, imprime neles umas artes bonitas, e chama esses papéis de títulos do tesouro (quem investe em tesouro direto, está investindo nesses títulos). O governo junta esses papéis todos, diz que eles valem R$10 bilhões, e manda tudo para o banco central. Por sua vez, o banco central faz a mesma brincadeira: pega um monte de papéis, imprime as suas artes neles (essas que vemos nas notas de dinheiro), estipula que esses papéis valem R$10 bilhões, e mandam para o governo. Acontece essa troca de papéis com artes bonitas e valores inventados: um lado fica com títulos do tesouro, e o outro com o que chamamos de dinheiro. E assim, o governo deposita esses R$10 bilhões no banco, e pronto: R$10 bilhões foram criados do nada!

Obviamente, hoje em dia a maior parte dessas transações são digitais, o que poupa o governo e o banco de central de ter que imprimir artes lindas em folhas de papel. Hoje tudo acontece com números em telas de computador – basta clicar aqui e ali, e o governo cria R$10 bilhões do nada sem esforço. De fato, a prova de que a nossa fé cega no dinheiro é insustentável vem justamente desse fato: todo o dinheiro que nós vemos que temos nas nossas contas bancárias através dos aplicativos dos bancos não existe de verdade. São somente números na telinha do seu aplicativo. Se todos fôssemos sacar os nossos dinheiros juntos, isso quebraria todo o sistema financeiro, porque o nosso dinheiro simplesmente não existe de verdade! Sim, você está trabalhando e pagando as suas contas usando algo que não existe!

Dinheiro sempre significa dívida

O que o exemplo acima demonstra é o processo de criação de dinheiro, e o que ele evidencia é que todo e qualquer dinheiro em existência sempre é resultado da criação de uma dívida. Por que? Porque nessa troca de papéis bonitos entre o governo e banco central, existe o comprometimento do governo de recomprar os títulos de tesouro do banco central no futuro com juros (mais sobre isso depois).

Bom, nesse momento, o governo já tem R$10 bilhões recém-criados na sua conta do banco. É aqui que a brincadeira realmente fica assustadora! Esses R$10 bilhões se tornam parte da “reserva” do banco, e conforme o documento revela: “um banco deve manter reservas legalmente exigidas equivalente a uma porcentagem definida de seus depósitos”, e “pelas normas vigentes, a reserva exigida para a maioria das contas correntes é de 10%”. O que isso quer dizer? Que dos R$10 bilhões depositados pelo governo, o banco só precisa guardar 10% – ou seja, R$1 bilhão. Esse R$1 bilhão se torna a tal da “reserva exigida”, e os demais R$9 bilhões se tornam valores excedentes, que o banco pode usar para novos empréstimos.

A coisa lógica de se pensar é que se o banco precisa guardar R$1 bilhão como reserva, e isso lhe garante o direito de usar os R$9 bilhões como futuros empréstimos para pessoas comuns como eu e você, que então os nossos empréstimos e financiamentos sairiam desses R$9 bilhões, certo? Errado. No tal do sistema bancário de reservas fracionadas, o banco continua com os R$10 bilhões na conta, mas tem o direito de criar do nada os R$9 bilhões que eles podem usar para novos empréstimos. Ou seja: agora saímos dos R$10 bilhões iniciais, criados a partir do nada, para mais R$9 bilhões criados pelo banco a partir do nada, totalizando R$19 bilhões criados sem absolutamente nada de real por trás.

Isso demonstra o processo de criação e expansão do dinheiro. Isso só é possível porque a regra para os bancos é diferente da regra para nós. Como explica o documento: “Naturalmente, os bancos não saldam o dinheiro que recebem como depósitos. Se isso fosse feito, nenhum dinheiro adicional seria criado.” Em outras palavras: os bancos não precisam repagar nenhum empréstimo desses depósitos, porque isso implicaria na quebra desse sistema de criar novos dinheiros a partir do nada. Agora, vai você pedir um empréstimo e tenta negociar que ele não precisará ser pago devidamente? Zero chance de isso acontecer. É o mesmo jogo, o mesmo tabuleiro, mas regras diferentes.

Veja na prática a consequência desse sistema: então digamos que o banco agora tem seus R$10 bilhões na conta, criou do nada R$9 bilhões adicionais para empréstimos, e você foi a pessoa que pegou esses R$9 bilhões de empréstimo (na realidade, óbvio que esses R$9 bilhões serão o empréstimo de milhões de pessoas para diferentes fins, mas só pra facilitar aqui o exemplo, vamos assumir que uma pessoa sozinha pegou os R$9 bilhões de empréstimo). O que essa pessoa vai fazer? Ela deposita os R$9 bilhões que pegou na sua conta do banco. Opa, e agora? A brincadeira se repete: o banco que recebeu os R$9 bilhões só tem a exigência de ter como reserva 10% (ou R$900 milhões) para poder criar os outros 90% de novos dinheiros criados do nada – ele guarda R$900 milhões, e cria mais R$8,1 bilhões de novos dinheiros que ele pode emprestar para a próxima pessoa que quiser um empréstimo. Esse processo pode ser repetido infinitamente, e eventualmente implica na criação total de R$90 bilhões que originaram dos R$10 bilhões iniciais (que por sua vez, também foram criados a partir do nada). Para cada depósito feito no sistema bancário, o banco cria no mesmo instante 9 vezes a quantia depositada. Quando você faz um Pix de R$1000 para alguém, o banco daquela pessoa acabou de criar R$9000 em dinheiro novo, sem esforço algum, sem risco, e sem ter que repagar nada.

Sendo assim, até agora deve estar claro para você que (1) todo dinheiro é criado a partir do nada, (2) a vasta maioria do dinheiro do mundo só existe em telinhas de aplicativos, e não existe de verdade, (3) que todo dinheiro é sempre fruto da criação de alguma dívida, que deve ser paga por você, mas nunca por bancos ou governos, e (4) que estamos todos dedicando as nossas vidas ao mesmo jogo, usando o mesmo tabuleiro, mas jogando com regras diferentes para governos e bancos das que são impostas sobre nós.

Eu vou avaliar a recepção dos leitores sobre um post como esse, e se houver interesse por parte de vocês, eu vou continuar escrevendo sobre isso e entrando em mais detalhes sobre as consequências desse sistema na vida prática de todos nós.

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