[Update de 4 de março] Guerra com o Irã: Como estamos aqui em Dubai

[Update de 4 de março] Guerra com o Irã: Como estamos aqui em Dubai

As últimas duas noites (2 e 3 de março) foram mais tranquilas do que as anteriores. No total, ouvimos umas dez explosões. A maioria foram drones explodidos pelos jatos aqui dos Emirados.

Eles decolam da Base Aérea de Dubai, em Al Minhad, que fica a uns 15 km aqui de casa, e tentam abater os drones em cima do mar, antes de chegarem dentro da cidade. Como eu moro na praia, os jatos sobrevoam a minha casa a caminho do mar, abatem os drones, e retornam para a base novamente sobrevoando a minha casa. Fica então esse ciclo: ouve-se o barulho dos jatos, depois de um tempo as explosões dos drones, e depois o barulho de retorno dos jatos.

Mas, é claro, nem todos os drones são abatidos com sucesso. A própria base de Al Minhad foi acertada ontem, e nessa última madrugada um escritório da CIA foi atacado dentro do Consulado Americano de Dubai. Aliás, isso tem sido o procedimento comum dos ataques do Irã aqui nos Emirados: eles atacam durante a madrugada.

Novidades importantes

De notícias relevantes, que muito provavelmente não serão comunicadas pela mídia sionista aí no Brasil, talvez a mais importante seja que a Arábia Saudita e o Catar – em teoria aliados dos Estados Unidos e de “Israel” – identificaram e prenderam agentes do Mossad (serviço terrorista de inteligência de “Israel”) planejando atentados terroristas em locais turísticos dentro dos seus países.

Eles estão em busca de desestabilizar os países e mobilizá-los mais violentamente contra o Irã. De fato, os “israelenses” explodiriam um shopping center cheio de turistas, e jogariam a culpa no Irã, algo que geraria muita fúria contra os iranianos e forçaria Arábia Saudita e Catar a iniciarem seus próprios ataques contra o Irã também. Felizmente, pelo menos por enquanto, os terroristas de “Israel” foram impedidos, e os países do Golfo não atacaram o Irã.

Entre os países do Golfo, os Emirados aqui tem sido o menos afetado, pelo menos por enquanto. Já no Bahrein, a coisa está realmente feia! Tenho muitos amigos lá, e a situação está fora de controle. O país possui a Central de Comando das Forças Navais dos Estados Unidos, e por isso foi alvo direto do Irã desde os primeiros momentos após “Israel” ter iniciado a guerra. A base americana foi quase totalmente destruída – fato confirmado por dezenas de imagens de satélite publicadas ontem. Além disso, é possível que a base tenha sido evacuada e abandonada. Ao mesmo tempo, nas ruas do Bahrein muita gente está queimando bandeiras de “Israel” e dos Estados Unidos, condenando os ataques do Irã, e pedindo pela expulsão das forças americanas e sionistas da região. Realmente, um caos total foi instalado ali. O Bahrein é uma ilha, mas possui uma ponte de conexão com a Arábia Saudita. Muitos dos meus amigos fugiram para a Arábia Saudita por essa ponte, antes de um drone do Irã explodir parte da ponte na madrugada de ontem. Hoje pela manhã, a Embaixada dos Estados Unidos no Bahrein pediu para que todos os americanos, civis e militares, deixassem o Bahrein por qualquer via possível. Aparentemente, a casa caiu.

No mais, Estados Unidos e “Israel” haviam prometido uma ação rápida que derrubaria o governo do Irã dentro de 48 horas. Aqui estamos agora, enquanto escrevo esse post, passadas 120 horas desde que “Israel” abriu o conflito atacando a escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, e matou 165 menininhas, e não há absolutamente nenhum sinal de fraqueza no governo do Irã. Pelo contrário, mesmo em meio às bombas que caem o dia todo, milhares de pessoas estão nas ruas protestando e cantando “Morte aos Estados Unidos” e “Morte a Israel”, e o governo parece ter sido fortalecido.

Aparentemente, um Aiatolá vivo como Imã é mais fraco do que um Aiatolá morto como mártir.

Meus planos aqui em Dubai

Algumas pessoas do Brasil me perguntaram: se o espaço aéreo abrir, você vem para cá?

Resposta: não, ficarei aqui mesmo.

Sinto como o Pavel Durov (criador do aplicativo Telegram) falou dias atrás: saí de Dubai e me sinto mais em risco aqui na Europa. Contexto: o Pavel também mora aqui em Dubai, e teve a infelicidade de estar na Europa quando “Israel” iniciou a guerra, e pelo espaço aéreo estar fechado ele não consegue voltar para cá.

Eu realmente penso igual a ele. Eu sempre me senti mais incomodado com o perigo em São Paulo do que aqui em Dubai, mesmo debaixo de guerra. No Brasil, as pessoas já auto-cancelaram os seus direitos tão profundamente que a falsa impressão de que está mais ou menos sob controle domina. Basta você não abrir as janelas do carro de noite, não mexer no celular andando na rua, não passar em bairro tal ou tal de noite, não isso e não aquilo, uma longa lista de nãos, que quase nada pode acontecer com você. Na minha última estadia no Brasil, em São Paulo no bairro de Perdizes, o bairro ficava totalmente escuro e morto depois das 20:00 horas. Os vizinhos me ensinaram que é muito perigoso sair depois dessa hora – “muitos assaltos, até os entregadores de pizza estão assaltando as casas”. Enfim, medo assim ninguém passou em Dubai mesmo com mísseis iranianos sobrevoando nossas casas.

Em qualquer caso, esse fascínio doentio por segurança é uma doença. Não é o post ideal para uma reflexão sobre isso, mas tratando brevemente do assunto, porque é relevante para esse post: a vida de verdade é incerteza e aventura, o oposto de calmaria e busca de segurança em coisas sobre as quais nós não temos controle. O medo de tudo e a busca contínua de segurança física nada mais é do que doença espiritual, porque Deus já foi abandonado e a pessoa acredita que o seu destino está nas mãos dela. Atenção: não estou dizendo que não tentar entender os perigos e se prevenir é o ideal. Não é isso. Mas, de fato, quando se mata a Deus, tudo realmente parece mais perigoso.

Enfim, com guerra ou sem guerra, e com espaço aéreo plenamente aberto, eu ficarei aqui mesmo, porque eu tenho zero medo do que possa acontecer. Eu estou bem, estou com a minha família, e seguindo em ritmo de vida normal, assim como a maioria das pessoas aqui. Saio de manhã e no fim da tarde, sento em banco público, leio meus livros, converso com as pessoas. Encontramos com nossos amigos, batemos papos, ficamos imaginando cenários malucos de onde isso tudo pode chegar, e voltamos para casa tranquilos com qualquer possibilidade.

Se eu estivesse hoje em São Paulo, impossibilitado de voltar para cá de imediato, aí sim eu estaria bem assustado e preocupado.

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